A Lei do Dízimo no Novo Testamento
A questão envolvendo os fundadores da igreja
Renascer em Cristo reacendeu o debate sobre a administração
financeira das igrejas. E é impossível falar sobre administração
financeira da igreja sem falar em dízimo.
Há no mundo cristão muita polêmica sobre a
validade da lei que obriga a entrega do dízimo. A lei que ordena a
entrega do dízimo continua em vigor após a morte de Cristo? Temos
base bíblica para afirmar que hoje quem não entrega o dízimo na
igreja está roubando a Deus? O dízimo continua sendo lei para os
cristãos?
O único capítulo do Novo Testamento que
comenta explicitamente sobre a LEI do dízimo é Hebreus 7. Vale a
pena ler e reler este capítulo. Vamos comentar um pouco sobre este
capítulo e tentar tirar informações sobre a validade da lei do
dízimo para os cristãos.
Hebreus 7:1-4 recapitula a experiência de
Abraão dando o dízimo a Melquisedeque.
No entanto o dízimo é apresentado como sendo
LEI apenas a partir do verso 5, agora dentro do sistema levítico.
Vejamos:
"E os que dentre os filhos de Levi recebem o
sacerdócio têm ordem, SEGUNDO A LEI, de tomar os
dízimos do povo, isto é, de seus irmãos, ainda que estes também
tenham saído dos lombos de Abraão." (Hebreus 7:5)
Que lei do dízimo é essa citada em Hebreus
7:5? É a lei de Moisés, lei que obrigava o israelita a levar os
dízimos para os levitas. Segundo esta lei, conforme explicado no
verso 5, os levitas tinham o direito de tomar os dízimos do povo de
Israel. Isso era lei! Lei completamente vinculada ao ministério
sacerdotal dos levitas.
Os versos 6-10 do mesmo capítulo falam sobre o
fato de Levi, através de Abraão, seu bisavô, ter pago o dízimo a
Melquisedeque. Isso mostra a superioridade da ordem de
Melquisedeque sobre a ordem levítica.
A LEI que já tinha sido citada no verso 5 é
citada uma segunda vez no verso 11, novamente dentro de um contexto
LEVÍTICO:
"De sorte que, se a perfeição fosse pelo
sacerdócio
levítico (pois sob este o povo recebeu a LEI), que necessidade havia
ainda de que outro sacerdote se levantasse, segundo a ordem de
Melquisedeque, e que não fosse contado segundo a ordem de Arão?" -
Hebreus 7:11
Um parênteses aqui: Perceba que nas várias
vezes em que o capítulo menciona Abraão dando dízimo para
Melquisedeque em nenhum momento é dito ou sequer sugerido que
Abraão o fez por força de lei. A LEI para dizimar (biblicamente
falando) só aparece no contexto LEVÍTICO.
O verso 12 é o ponto de ruptura:
"Pois, mudando-se o sacerdócio, necessariamente
se faz também mudança da lei." (Hebreus 11:12)
Esta é a terceira vez que a palavra "lei"
aparece neste capítulo. O verso claramente está se referindo às
leis relacionadas ao sacerdócio levítico e isto obviamente inclui a
lei do dízimo citada nos versos 5 e 11, lei que ordenava a entrega
do dízimo aos levitas. Estas leis são mudadas no momento em que
Cristo morre, ressuscita e torna-se sumo-sacerdote segundo a ordem
de Melquisedeque.
Este é o momento de ruptura do antigo modelo.
Cai o sacerdócio levítico com todas as suas leis e surge um novo
modelo sacerdotal que é encabeçado por Cristo e descrito entre os
versos 13-17. Quando lemos que o sistema sacerdotal levítico caiu e
como consequência suas leis cairam, inclui-se aqui a lei de que
este capítulo trata, a lei do dízimo.
O tema principal de Hebreus 7 é a supremacia
do novo modelo sacerdotal. A abolição da lei que obrigava a entrega
do dízimo aos levitas é apenas citada para ilustrar a falência do
antigo modelo sacerdotal. A palavra dízimo é citada sete vezes nos
primeiros 9 versos do capítulo. Isso mostra quão forte foi o
argumento do dízimo na defesa da tese principal. Fica claro quando
o modelo levítico é superado e cai por terra, as leis atreladas a
ele também caem por terra.
Se alguns ainda têm dúvidas sobre a anulação
desta lei, basta continuar a leitura do capítulo.
"Pois, com efeito, o mandamento anterior é
ab-rogado por causa da sua fraqueza e inutilidade (pois a
lei nenhuma coisa aperfeiçoou), e desta sorte é introduzida uma
melhor esperança, pela qual nos aproximamos de Deus." - Hebreus
7:18-19
As leis que aparecem na Bíblia ordenando a
devolução do dízimo sempre estão ligadas ao
sacerdócio levítico, nunca ao sacerdócio de
Melquisedeque. Fora da vigência do sacerdócio levítico não há lei
que ordene pagamento de dízimo.
Apesar de não encontrarmos nenhuma lei
obrigando a devolução do dízimo fora da vigência da ordem levítica,
temos exemplos de pessoas que dizimaram por gratidão e por força de
voto, mesmo não havendo lei. Estas pessoas foram Abraão e Jacó
(Gênesis capítulos 14 e 28).
Para o cristão a força do exemplo dos patriarcas é maior que a
força da lei levítica. Para nós o dízimo deve ser entendido como
algo voluntário, não obrigatório. Se eu desejar, posso dizimar
voluntariamente, movido por gratidão como fez Abraão. Posso também
fazer um voto de dizimar como fez Jacó. O que eu não posso fazer é
abrir a Bíblia nos mandamentos levíticos e dizer ao povo que estes
mandamentos estão em vigor e que o povo tem a obrigação de dar o
dízimo para a igreja e, caso não dêem, estarão roubando a Deus.
Isso não dá para fazer honestamente.